A idade que não sei

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Autor: Felipe Gallesco

Há momentos em que minha idade me parece inexata.
Não a dos documentos.
Outra.
Mais difícil de localizar.

Ela surge sem aviso.

No modo como certas paisagens me recebem.
Na familiaridade de algumas tristezas.
Na impressão de reconhecer,
em determinados silêncios,
algo que não me lembro de ter aprendido.

Não penso nisso com frequência.

A vida cotidiana possui exigências demais.
Compromissos.
Prazos.
Pequenas urgências.

Mas às vezes acontece.
Uma espécie de deslocamento.
Como se a existência,
por um instante,
deixasse aparecer sua costura.

Então percebo
que minha história é maior
do que aquilo que consigo lembrar.

Há algo de estranho na memória.

Ela conserva detalhes inúteis.
Uma rua.
Um perfume.
Uma tarde qualquer.

E, no entanto,
permanece muda
sobre questões muito mais profundas.

Talvez porque sua função
não seja guardar a totalidade.

Talvez porque certas experiências
não tenham sido feitas para regressar como lembrança,
mas como caráter.
Como intuição.

Como uma sabedoria discreta
cuja origem já não recordo,
mas que parece vir de muito longe,
de uma distância medida em milênios.

Por vezes imagino
que o espírito atravessa as existências
da mesma forma que o viajante atravessa cidades.

Não leva consigo os edifícios.
Nem as ruas.
Nem os nomes.

Mas algo permanece.

Algo que não cabe nas fotografias.
Algo que sobrevive
ao desgaste dos acontecimentos.

Talvez seja por isso
que nunca me senti inteiramente contido
pelos limites desta vida.

Há sempre em mim
uma testemunha silenciosa,
conhecedora de uma extensão da viagem
que meus olhos ainda não conseguem alcançar.

Nota

Desde os tempos mais antigos, a poesia tem sido uma ponte entre a alma e o infinito. No Espiritismo, ela encontra um campo fértil para inspirar, consolar e iluminar consciências, expressando em versos sentimentos que muitas vezes escapam à linguagem comum. Seja pela sensibilidade dos poetas encarnados ou pelas mensagens de origem espiritual que marcaram a literatura espírita, a poesia continua sendo uma valiosa ferramenta de reflexão, beleza e elevação do pensamento.

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