Novo memristor pode tornar chips de inteligência artificial muito mais econômicos

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Autor: Felipe Gallesco

E se a próxima grande evolução da inteligência artificial não vier de um modelo maior, mas de um computador que funcione de outra maneira?

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, desenvolveram um novo tipo de memristor, componente eletrônico que pode armazenar e processar informações ao mesmo tempo.

A descoberta pode ajudar a criar uma nova geração de chips de inteligência artificial com consumo de energia muito menor.

O estudo foi publicado em 20 de março de 2026 na revista científica Science Advances. A pesquisa foi liderada pelo físico de materiais Babak Bakhit, em colaboração com pesquisadores de Cambridge e instituições dos Estados Unidos, Suécia e China.

E não foi uma descoberta que aconteceu de um dia para o outro. Segundo Bakhit, foram quase três anos de experimentos até a equipe conseguir o resultado que procurava. O avanço decisivo aconteceu no fim de novembro de 2025.

O que há de diferente?

Nos computadores atuais, memória e processamento ficam separados. Os dados precisam ficar viajando entre os dois — e esse movimento constante consome energia.

Os chamados computadores neuromórficos tentam fazer diferente, aproximando armazenamento e processamento e buscando inspiração no funcionamento do cérebro.

O novo memristor utiliza uma camada de óxido de háfnio modificada com estrôncio e titânio. A alteração permite que o componente assuma centenas de níveis diferentes de condutância.

Em vez de funcionar simplesmente como um interruptor — ligado ou desligado —, ele se comporta mais como um dimmer de luz, podendo trabalhar com diferentes intensidades.

E essa diferença pode ser importante para sistemas de inteligência artificial.

Um milhão de vezes menos corrente

Nos testes, os pesquisadores conseguiram correntes de comutação de aproximadamente 10⁻⁸ ampère ou menos.

Segundo Cambridge, isso representa correntes cerca de um milhão de vezes menores do que as observadas em alguns dispositivos convencionais baseados em óxidos.

Os componentes também suportaram dezenas de milhares de ciclos e conseguiram manter estados programados por mais de 100 mil segundos nos experimentos.

Mas há outra característica curiosa.

Os pesquisadores conseguiram reproduzir no dispositivo um mecanismo associado ao aprendizado das redes neurais biológicas, conhecido como STDP. Ele altera a força das conexões dependendo do momento em que os sinais são recebidos.

Não significa que o memristor tenha aprendido a conversar ou desenvolvido algum tipo de consciência.

Significa que ele apresenta características que podem ser úteis para construir hardware inspirado no cérebro.

Ainda falta bastante

A descoberta é promissora, mas está longe de chegar aos computadores que usamos.

Hoje, a fabricação do dispositivo exige temperaturas próximas de 700 °C, o que dificulta sua utilização nos processos convencionais da indústria de semicondutores.

Os pesquisadores já trabalham para diminuir essa temperatura.

Se conseguirem, o memristor poderá se tornar uma peça de uma nova geração de chips capazes de processar informações de maneira mais eficiente.

Talvez o futuro da inteligência artificial não dependa apenas de fazê-la pensar mais.

Talvez seja preciso ensiná-la a gastar menos energia para pensar.

Referências

  • Science Advances — Bakhit, Babak et al. HfO₂-based memristive synapses with asymmetrically extended p-n heterointerfaces for highly energy-efficient neuromorphic hardware, publicado em 20 de março de 2026. Artigo científico
  • University of Cambridge — New computer chip material inspired by the human brain could slash AI energy use, 30 de março de 2026. Universidade de Cambridge
  • Cambridge Enterprise — informações sobre a pesquisa e suas possíveis aplicações. Cambridge Enterprise
  • University of Cambridge Repository — versão publicada do estudo. Cambridge Repository
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