Autor: Felipe Gallesco
Você já terminou um relacionamento e pensou: “De novo isso? Como eu fui parar na mesma história outra vez?”
Mudam o nome, a aparência, a profissão. Mas alguma coisa continua estranhamente parecida. Você se envolve com alguém distante, começa a ter medo de perder a pessoa, cobra atenção, sente ciúme, a relação fica pesada e, algum tempo depois, tudo se repete com outra pessoa.
Será apenas azar?
Talvez não.
Na psicologia, existe uma ideia interessante: nossos relacionamentos podem funcionar como uma espécie de espelho. Não significa que todas as pessoas que nos incomodam sejam parecidas conosco, mas algumas relações conseguem revelar coisas que normalmente deixamos escondidas: medo de abandono, necessidade de aprovação, dificuldade de confiar ou até medo de se aproximar demais.
Carl Jung, um dos nomes mais conhecidos da psicologia, chamou atenção para o fenômeno da projeção — quando aspectos que não reconhecemos em nós mesmos influenciam a maneira como enxergamos outras pessoas. A ciência atual não confirma todas as ideias de Jung, mas pesquisas contemporâneas sobre apego mostram que experiências e padrões emocionais podem influenciar bastante nossos relacionamentos.
Uma grande meta-análise, que reuniu 224 estudos e quase 80 mil participantes, encontrou associações entre insegurança de apego e problemas como ansiedade, solidão, autoestima e satisfação com a vida. [1]
E isso aparece em situações bem comuns. A pessoa demora para responder uma mensagem. Para alguém, significa apenas que ela está ocupada. Para outra, já significa: “Está perdendo o interesse”. O fato é pequeno. A história criada pela nossa cabeça pode ser enorme.
No Espiritismo, essa reflexão pode ganhar uma perspectiva diferente. Se estamos aqui para aprender e nos transformar, nossos relacionamentos também podem revelar aquilo que ainda precisamos compreender e melhorar em nós mesmos. Isso não significa que todo relacionamento difícil tenha sido planejado para nos ensinar uma lição, muito menos que devamos permanecer em uma relação que nos faz mal. Talvez o mais importante seja perceber o que cada experiência desperta em nós e o que podemos fazer com isso.
Por que eu fico tão desesperado quando alguém se afasta? Por que preciso tanto ser escolhido? Por que tenho dificuldade de confiar? Por que aceito determinadas coisas apenas para não ficar sozinho?
Essas perguntas podem incomodar. Mas também podem gerar reflexões.
E existe uma diferença importante entre se observar e se culpar. A culpa diz: “Eu sou assim”. O autoconhecimento pergunta: “Por que faço isso? E será que posso fazer diferente?”.
A boa notícia é que nossos padrões não precisam ser permanentes. Pesquisas mostram relações entre insegurança de apego, conflitos e menor satisfação nos relacionamentos, mas isso não significa que estejamos condenados a repetir as mesmas histórias. [2][3]
Talvez o próximo relacionamento não precise começar com a pergunta “Será que encontrei a pessoa certa?”. Pode começar com outra:
“Quem eu sou quando estou com alguém?”
Porque talvez o efeito espelho não esteja apenas em descobrir que escolhemos pessoas parecidas. Talvez esteja em perceber que algumas relações mostram partes de nós que ainda não aprendemos a conhecer.
Referências
1. Dagan, O. et al. The relationship between adult attachment and mental health: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 2022.
PubMed — The relationship between adult attachment and mental health
2. Insecure Attachment Orientation in Adults and Children and Negative Attribution Bias: A Meta-Analysis.
PMC — Insecure Attachment Orientation and Negative Attribution Bias
3. Conradi, H. J. et al. Satisfying and stable couple relationships: Attachment similarity across partners can partially buffer the negative effects of attachment insecurity. Journal of Marital and Family Therapy, 2021.
PMC — Satisfying and stable couple relationships


