A cultura da pressa: quando descansar virou suspeito

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Autor: Felipe Gallesco

Eu queria descansar. Só isso. Nada muito ambicioso. Terminar o dia, jogar o corpo no sofá e ficar ali, existindo. Sem curso, sem livro, sem exercício, sem “aproveitar o tempo”. Só ficar.

Cinco minutos depois, estou com o celular na mão procurando alguma coisa para fazer.

Não sei nem o quê. Só estou procurando.

Aí aparece um vídeo. Depois outro. Vejo uma pessoa arrumando a casa, outra ensinando a organizar a rotina, outra falando sobre os benefícios de acordar às cinco da manhã. Às cinco da manhã eu mal consigo negociar com a minha existência, mas aparentemente deveria estar acordando nesse horário para vencer na vida.

E pronto. O descanso, que era para ser descanso, virou pesquisa sobre como descansar melhor.

A gente ficou meio estranho com o tempo livre. Quando aparece uma brecha na agenda, a primeira reação é preencher. Se sobram vinte minutos, dá para responder mensagens. Se sobra uma hora, dá para estudar. Se sobra uma tarde, dá para resolver alguma coisa. E se não houver nada para resolver, sempre existe o celular, esse maravilhoso dispositivo criado para facilitar nossa vida e garantir que nunca mais tenhamos cinco minutos de silêncio.

O curioso é que muita coisa ficou mais rápida. Mensagens chegam na hora, compras chegam em casa, mapas encontram caminhos, aplicativos fazem contas, máquinas fazem tarefas que antes demoravam um tempão. A promessa era ganhar tempo.

Só que parece que existe uma regra secreta: todo tempo economizado precisa ser imediatamente ocupado.

Terminou uma tarefa? Próxima.

Resolveu uma coisa? Tem outra.

Abriu um espaço na agenda? Coloca alguma coisa ali.

É quase Tetris, só que as peças são compromissos e quem perde é você.

E não é só o trabalho. Até o descanso entrou nessa história. Dormir não pode ser apenas dormir. É preciso dormir bem para melhorar a produtividade. Ler não pode ser simplesmente ler. Tem que desenvolver alguma habilidade. Caminhar não pode ser só caminhar. Tem que contar passos. Meditar tem que reduzir o estresse. Viajar tem que proporcionar experiências.

Às vezes eu só queria ficar olhando para o teto, mas até isso parece uma atividade que precisa de propósito.

E existe uma palavra que aparece rapidinho quando a gente tenta fazer isso: preguiça.

“Hoje eu não fiz nada.”

A frase já vem com culpa embutida.

Como se fosse necessário acrescentar: “mas amanhã eu compenso”.

Só que talvez não fazer nada seja exatamente uma das poucas coisas que ainda não conseguimos transformar em obrigação. E isso é meio engraçado, porque passamos tanto tempo tentando otimizar tudo que até o descanso começa a parecer um projeto.

Talvez seja por isso que o tédio incomode tanto. Você está esperando alguém, não tem internet, o celular está com 2% de bateria e, de repente, parece que foi abandonado numa ilha deserta. Cinco minutos depois começa a olhar para o ambiente como se nunca tivesse visto uma parede antes.

Mas é justamente nesses espaços meio inúteis que a cabeça pode fazer coisas que não estavam na agenda. Lembrar de uma música. Pensar em alguém. Ter uma ideia. Observar alguma coisa. Ou simplesmente… não fazer nada.

Não estou dizendo que deveríamos largar tudo, cancelar os compromissos e passar o dia deitado. Seria ótimo para alguns e um desastre para quase todo o resto. A vida tem conta, trabalho, estudo, família, problemas e aquela roupa que está na máquina há tempo demais.

A questão é outra.

Por que, quando finalmente aparece um pouco de tempo que não precisa ser usado para nada, a gente sente que está desperdiçando alguma coisa?

Talvez porque tenhamos aprendido a medir o dia pelo que conseguimos colocar dentro dele. Quanto fizemos. Quanto produzimos. Quanto avançamos.

Só que tempo não é necessariamente espaço vazio esperando uma tarefa.

Às vezes é só tempo.

Talvez você possa chegar em casa e não fazer absolutamente nada por uma hora. Pode ouvir música, ficar na janela, dormir, jogar conversa fora, olhar para o teto ou descobrir, depois de quinze minutos, que a geladeira realmente precisa ser organizada.

Tudo bem.

Só não transforme isso em meta.

Porque, se até descansar entrar na lista de coisas que precisamos fazer direito, talvez a gente tenha conseguido transformar até o descanso em trabalho.

E olha que eficiência.

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