Autor: Felipe Gallesco
Tem dias em que parece que o clima simplesmente perdeu a noção
Uma hora está um calor absurdo. Depois vem aquela chuva que parece querer resolver o problema do planeta inteiro em meia hora. Em outro lugar, quase não chove.
E, no meio disso tudo, aparece uma expressão que volta e meia invade as notícias: El Niño.
Mas será que ele é o responsável por tudo isso?
Não exatamente.
E entender o que está acontecendo pode ser bem mais interessante do que simplesmente decorar o nome de mais um fenômeno climático.
Primeiro: o que é esse tal de El Niño?
Imagine uma enorme área do Oceano Pacífico ficando mais quente do que deveria.
É basicamente aí que começa a história.
O El Niño acontece quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial apresentam um aquecimento anormal. Parece algo que deveria interessar apenas a quem mora perto do oceano, mas não é bem assim.
O planeta é um sistema conectado.
Quando a temperatura do oceano muda, a atmosfera também reage. E essas mudanças podem alterar os padrões de chuva e temperatura em lugares muito distantes.
Inclusive aqui no Brasil.
E o El Niño de 2026 está chamando atenção justamente porque promete ser bastante intenso.
O Brasil não vai sentir o El Niño do mesmo jeito
Essa talvez seja a parte mais importante.
Se alguém disser que “o El Niño vai deixar o Brasil mais quente e seco”, desconfie.
A situação é bem mais interessante — e complicada.
O fenômeno pode aumentar as chuvas em determinadas regiões e diminuir em outras.
Enquanto alguém pode estar olhando para uma rua alagada, outra pessoa, a centenas ou milhares de quilômetros dali, pode estar preocupada porque o rio está baixando.
É o mesmo fenômeno.
Só que com efeitos bem diferentes.
No Sul, o problema pode ser chuva demais
Para o Sul do Brasil, a previsão merece atenção.
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão entre as regiões que podem receber chuvas acima da média nos próximos meses.
E aqui existe uma pequena pegadinha.
Chuva é boa.
Até deixar de ser.
Para a agricultura, água na medida certa pode ser ótima notícia. Mas quando a chuva vem em excesso, o cenário muda rapidamente.
Rios podem subir, o solo pode ficar encharcado e aumenta o risco de alagamentos e enchentes.
Então, para parte do Sul, a pergunta dos próximos meses pode não ser “quando vai chover?”.
Pode ser:
“Será que vai chover demais?”
No Norte, a preocupação é justamente a falta de chuva
Agora atravesse o mapa e a situação muda bastante.
Em várias áreas da Região Norte, a previsão aponta para chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas.
Na Amazônia, isso tem uma consequência que nem sempre aparece nas manchetes.
Os rios não são apenas paisagens bonitas.
Eles funcionam como estradas.
Muita gente depende deles para se deslocar e para receber alimentos, medicamentos e outros produtos.
Quando o nível da água baixa demais, a navegação pode ficar complicada.
E existe ainda o risco de incêndios aumentar quando o calor se combina com vegetação mais seca.
O El Niño não acende uma floresta sozinho, claro. Mas pode criar condições que facilitam a propagação do fogo.

Nordeste: água continua sendo assunto sério
No Nordeste, algumas áreas também podem enfrentar chuvas abaixo da média.
E quem vive em uma região que já convive historicamente com períodos de seca sabe que “um pouco menos de chuva” pode significar muito mais do que parece.
Reservatórios, agricultura, criação de animais e abastecimento dependem da água disponível.
Por isso, uma temporada mais seca merece atenção.
Mas sem pânico: o clima não é determinado por um único fenômeno. O El Niño é uma peça importante desse quebra-cabeça, mas existem outras.
E o Centro-Oeste?
Aqui entram duas palavras que ninguém precisa de meteorologia para entender:
calor e seca.
As previsões indicam temperaturas acima da média e possibilidade de chuvas abaixo do normal em algumas áreas do Centro-Oeste.
Isso preocupa especialmente quem trabalha com agricultura.
Porque plantação não precisa apenas de chuva.
Precisa de chuva na hora certa.
Se a água demora a chegar justamente quando a planta precisa dela, o problema aparece mesmo que depois venha uma grande quantidade de chuva.
E São Paulo? E o Sudeste?
Se você mora no Sudeste e estava esperando uma resposta simples, sinto informar: não tem.
O Sudeste é uma das regiões em que os efeitos podem ser mais variados.
Algumas áreas podem receber mais chuva, enquanto outras podem passar por períodos de estiagem.
Uma coisa, porém, aparece com mais frequência nas projeções: temperaturas acima da média.
Então, se você estiver reclamando do calor nos próximos meses, pode até olhar para o céu e perguntar:
“El Niño?”
Talvez.
Mas não coloque toda a culpa nele.
Afinal, o El Niño causa o aquecimento global?
Não.
E essa confusão aparece bastante.
El Niño e aquecimento global são coisas diferentes.
O El Niño é um fenômeno natural que acontece periodicamente por causa das alterações nas condições do Oceano Pacífico e da atmosfera.
O aquecimento global está relacionado ao aumento da concentração de gases de efeito estufa provocado principalmente pelas atividades humanas.
Os dois podem acontecer ao mesmo tempo.
É por isso que falar sobre o clima hoje ficou tão interessante — e também tão complicado.
Então o que esperar dos próximos meses?
A previsão para o fim de 2026 aponta para um cenário de contrastes.
Mais chuva no Sul.
Menos chuva em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Calor acima da média em grande parte do país.
E, dependendo da região, maior atenção para enchentes, seca, incêndios ou impactos na agricultura.
O fenômeno deve continuar sendo acompanhado pelos órgãos de meteorologia e clima, porque as previsões podem mudar conforme novas informações chegam.
E essa talvez seja a melhor atitude para nós também.
Não precisa entrar em pânico a cada previsão de calor.
Nem achar que toda chuva forte é culpa do El Niño.
Mas vale prestar atenção.
Porque clima não é apenas aquela conversa que aparece no aplicativo do celular quando você decide se leva ou não um guarda-chuva.
Ele interfere na comida que chega à nossa mesa, na água que sai da torneira, no nível dos rios, na produção agrícola e até na maneira como milhões de pessoas conseguem se deslocar.
No fim, o El Niño é uma boa lembrança de que o planeta é muito mais conectado do que parece.
Uma mudança de temperatura no oceano pode começar bem longe daqui.
Mas, algumas semanas ou meses depois, ela pode acabar batendo à nossa porta.
E aí a gente percebe que clima nunca foi apenas assunto de meteorologista.
Referências
- INMET — Instituto Nacional de Meteorologia. El Niño: monitoramento, previsões e possíveis impactos no Brasil.
- INPE — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Painel El Niño 2026–2027: monitoramento do fenômeno no Brasil.
- Cemaden — Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Boletim do Painel El Niño nº 04 — potenciais impactos e orientações.
- NOAA — National Oceanic and Atmospheric Administration. ENSO Diagnostic Discussion.
As informações deste artigo refletem as previsões disponíveis em outubro de 2026 e podem ser atualizadas conforme novos dados meteorológicos e climáticos sejam divulgados.


