Autora: Teresinha Olivier
Seu pensamento era de vingança.
Não suportava a ideia de que aquele homem horrível estivesse livre. A pena fora muito curta. Quatro anos! Quatro anos para quem acabou com a sua vida? Não! Era muito pouco. Ele precisava sofrer mais, depois de ter transformado a sua vida num inferno.
Há quatro anos ela tinha uma vida. Tinha uma família. Ela, o marido e Julinho, o seu filho de três anos, viviam felizes.
Ela e Pedro tinham sonhos, faziam planos para o futuro. Comprar uma casa maior, ter mais um filho, envelhecer juntos… Sonhos que nunca se realizarão. Planos que nunca se concretizarão. E tudo por causa dele, o assassino que, dirigindo embriagado, jogou seu carro de encontro ao carro em que estavam Pedro e Julinho. E ela, de uma hora para outra, viu-se sozinha, perdida, sem rumo.
Entrou em desespero. Começou a beber e a fumar descontroladamente.
À noite, quando a dor chega a um grau insuportável, a bebida entorpece a sua mente, e ela consegue dormir.
Mas, no dia seguinte, precisa levantar-se, trabalhar, viver. E isso é extremamente penoso.
E agora ele está solto! Está nas ruas. Vai continuar a sua vida junto à esposa e filhos.
– Isso não é justo! Não está certo!
Ela sabe onde ele mora. Ronda a sua casa. Já viu a esposa levando os filhos à escola. Um menino e duas meninas.
– Ele não os merece! – Pensa com ódio.
Numa de suas visitas, sua irmã, preocupada, lhe disse:
– Você não pode continuar assim. Precisa de ajuda. Deixe-me levá-la a um lugar onde você poderá ser auxiliada.
– A única coisa que poderá me ajudar é ver aquele homem sofrer muito.
– Isso não vai ajudá-la em nada. Não vai trazê-los de volta. Você precisa adquirir forças e equilíbrio para continuar tocando a sua vida.
– Tocar a minha vida? Que vida? Você chama isto de vida? – Gritou, desesperada, apontando para a casa vazia.
A sua irmã não desistia:
– Você nunca os esquecerá. Nunca deixará de sentir saudades deles, porém, poderá encontrar novos motivos para viver. Tem que tentar. Venha comigo.
– Não! Deixe-me sozinha. Você não entende a minha dor. Ninguém entende.
Estava novamente espionando a casa dele.
Viu quando a mulher chegou com os três filhos e entraram.
Ficou ali, esperando. Não sabe quanto tempo passou. Escureceu.
Não conseguia sair dali, parecia hipnotizada olhando para aquela casa, quando ele chegou.
Parou o carro em frente à casa. As crianças saíram em algazarra, abraçando o pai. Ele abaixou-se e abraçou os três que, felizes, cobriam o pai de beijos e abraços. Entraram na casa.
Ela não conseguia ver mais nada, as lágrimas não permitiam.
– Não é justo! Não é justo! – Era só o que conseguia dizer. Era só o que conseguia pensar.
Foi para casa pensando em comprar uma arma.
Naquela noite bebeu mais do que costumava. Ficou jogada no sofá, sem ânimo de ir para a cama e nem mesmo de atender ao telefone que tocava insistentemente. Era a sua irmã, preocupada com ela.
Mais tarde tocaram a campainha. Foi atender quase se arrastando, era sua irmã que se assustou com o seu estado deplorável.
– Minha irmã! O que você está fazendo com a sua vida? Não posso permitir que continue com isso. Quer queira ou não, você vem comigo agora.
Pegou algumas roupas e levou-a para sua casa.
No dia seguinte, depois de um banho e um café forte, disse:
– De hoje em diante você vai se esforçar em dar um outro rumo à sua vida. Vai ficar aqui comigo. Vou levá-la ao centro espírita que eu frequento para você tomar passes e ouvir palestras e orientações que poderão ajudá-la muito.
– Não quero dar trabalho a ninguém e também acho que nada disso vai me ajudar. Nada vai aliviar a dor que eu sinto.
A irmã, penalizada, passando a mão carinhosamente pela sua cabeça cansada, disse:
– Você se engana. Com o tempo, você vai sentir alívio, sim. Eu tenho certeza disso.
Oito meses se passaram.
Ela já estava em sua casa. Estava triste ainda, porém, já não se entregava mais ao desespero. Também havia parado com a bebida. Apegava-se agora à leitura. Estava lendo um dos muitos livros que a sua irmã lhe trazia.
Continuava indo ao centro espírita. Sentia-se bem. As pessoas eram generosas, amigas. E estava aprendendo coisas que, de alguma forma, a ajudavam a aceitar e suportar a situação.
A sua irmã era espírita há muitos anos, começou na adolescência. Sempre a convidava, mas ela nunca se interessou. Agora, estava sendo de grande valia para ela. Sentia como que uma trégua, um alívio em seu peito. Sentia uma paz que a envolvia e serenava os seus sentimentos.
Porém, algumas vezes, ele ainda invadia seus pensamentos. Aquela imagem de família feliz que presenciara quando espionava sua casa, ainda fazia aflorar um sentimento de revolta em seu coração. Porém, nunca mais foi até lá.
Numa noite, estava no centro espírita esperando o início da palestra. Lia uma mensagem, quando ouviu um tumulto na porta de entrada. Viu que duas pessoas foram encaminhadas para a sala de entrevistas. Não viu quem eram, mas percebeu que uma delas, um homem, estava encurvado e precisava ser amparado para caminhar. E chorava muito.
Depois de alguns instantes, começou a palestra. Aquelas duas pessoas ficaram muito tempo na sala de entrevistas e ela se esqueceu do incidente.
Quando se iniciaram os passes e ela estava aguardando sua vez na fila, a porta da sala de entrevistas abriu e ela quase teve um desmaio. Suas pernas começaram a tremer e a cabeça a girar. Precisou segurar-se para não cair.
Era ele! Ele estava ali, na sua frente! Não era possível! Era muita coisa para suportar.
Um homem que estava ao seu lado amparou-a e ajudou-a a sentar-se. Sua irmã correu para socorrê-la.
– É ele! É ele! – Ela dizia com olhar desesperado.
Foi levada para a sala de atendimento e dois trabalhadores da casa vieram em seu auxílio. Sua irmã colocou-os a par dos acontecimentos e do motivo dela encontrar-se naquele estado.
Procuraram acalmá-la. Aplicaram-lhe um passe e deram-lhe um copo d’água.
– Agora, minha irmã, procure nos ouvir com atenção. Nós atendemos aquele homem e podemos lhe garantir que o sofrimento dele é muito grande.
– Sofrimento? – Disse ela – Sofrimento foi o que ele me causou com a sua irresponsabilidade. Ele não sabe o que é sofrer. Eu o vi feliz com a sua mulher e filhos depois de ter me tirado tudo o que eu tinha.
– Minha irmã – disse um dos atendentes – tudo o que é falado aqui nesta sala é confidencial, porém, em vista da situação inesperada e pouco comum de hoje, teremos que abrir uma exceção. Aquele homem, desde o acidente que provocou, nunca mais teve um dia de tranquilidade mental. Sua vida virou um verdadeiro inferno. A imagem do seu marido e do seu filho não sai da sua mente. O remorso não lhe dá tréguas.
O atendente fez uma pausa, aguardando que ela assimilasse bem suas palavras, e continuou:
– Ele veio diretamente do hospital para cá. Esteve internado durante dois meses, entre a vida e a morte.
– Internado por quê? – Perguntou ela.
– Porque ele, não suportando o remorso, tentou se matar. Foi socorrido a tempo. Foi trazido aqui pela esposa que também está sofrendo muito. Vai fazer um tratamento espiritual para poder superar tudo isso, voltar a trabalhar e sustentar os filhinhos que estão vivendo da caridade de parentes e amigos.
Depois de uma pausa:
– Então, minha irmã, você não acha que isso é sofrimento?
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio, com o olhar perdido, como se estivesse visualizando mentalmente o quadro descrito pelo atendente da casa espírita. Depois dessa pausa, deu um suspiro muito profundo, e disse:
– O senhor tem razão. É muito sofrimento.
Naquele instante, decisivo para sua vida, ela compreendeu que aquele que provoca o sofrimento a outrem enfrenta conflitos muito mais dolorosos, por carregar na consciência o sentimento da culpa. Culpa que o levará infalivelmente ao aprendizado, para que no futuro próximo ou remoto consiga perdoar-se, reparar seus erros através da prática do bem e continuar sua trajetória evolutiva.
E ela por sua vez, vai procurar aprender a perdoá-lo, porque entendeu que só assim encontrará a paz para si mesma.


