Autor: Felipe Gallesco
Aluga-se espaço na memória
Preferência para lembranças desagradáveis, conversas mal resolvidas e pessoas que já foram embora, mas continuam morando de graça na cabeça de alguém.
A descrição do imóvel é excelente: localização privilegiada, bem no meio dos pensamentos, com acesso fácil à irritação, à tristeza e àquela vontade repentina de lembrar de algo que aconteceu há oito anos. A inquilina, porém, tem alguns defeitos: não paga aluguel, não ajuda nas despesas e ainda costuma trazer parentes.
A mágoa funciona mais ou menos assim. Alguém faz um comentário desagradável, esquece nosso aniversário, quebra uma confiança ou simplesmente nos decepciona. O episódio passa, a vida continua, mas alguma coisa fica. De vez em quando, basta uma situação parecida para a lembrança reaparecer. E lá vamos nós reconstruir mentalmente a discussão, imaginar respostas que não demos e preparar discursos que provavelmente nunca serão pronunciados.
A psicologia chama parte desse processo de ruminação: quando ficamos voltando repetidamente a uma experiência desagradável, como se pensar nela mais uma vez fosse finalmente resolver alguma coisa. É quase uma reunião interminável com um problema que já foi embora, mas cuja ata continua sendo revisada.
E não é só a lembrança que permanece. Às vezes, passamos a enxergar situações novas através das lentes daquela antiga decepção. Uma pessoa demora a responder uma mensagem e pronto: começa a investigação. Será que está fazendo de propósito? Será que aconteceu alguma coisa? Será que é igual àquela outra pessoa? O departamento de teorias da conspiração já está funcionando.
É claro que nem toda mágoa desaparece simplesmente porque decidimos esquecer. Algumas situações machucam de verdade, abalam a confiança e exigem tempo para serem elaboradas. Reconhecer isso é bem diferente de fingir que está tudo bem.
E tem uma coisa curiosa nessa história: às vezes, a pessoa que nos magoou está vivendo tranquilamente, tomando café, assistindo a uma série ou reclamando do preço do supermercado. Enquanto isso, nós estamos no episódio 47 da discussão, com direito a flashback, trilha sonora dramática e diálogos inéditos.
O mais curioso é que, se perguntarmos a essa pessoa sobre o acontecimento, talvez ela nem se lembre. Não que isso torne o que aconteceu menos importante. Mas é uma situação e tanto: dois personagens, uma história e apenas um deles pagando a assinatura do streaming para assistir à reprise.
E ainda existem as mágoas de estimação. Aquelas que já conhecem a casa, têm lugar cativo no sofá e aparecem justamente quando tudo parecia estar indo bem. Algumas até ganham apelido. Outras são lembradas em aniversários, reuniões de família e encontros que não têm absolutamente nada a ver com o assunto original.
Aliás, se mágoa acumulada desse milhas, teria gente viajando o mundo inteiro sem gastar um centavo.
Referências
- NOLEN-HOEKSEMA, S.; WISCO, B. E.; LYUBOMIRSKY, S. (2008). Rethinking Rumination. Perspectives on Psychological Science, 3(5), 400–424.
- WATKINS, E. R. (2008). Constructive and Unconstructive Repetitive Thought. Psychological Bulletin, 134(2), 163–206.


